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16 de fevereiro de 2021

”Vem cá meu amor, estou morrendo de saudade de ti”, teria escrito jovem suspeito de matar ex-namorada

Uma história com enredo conhecido — namoro, ciúmes, agressões e ameaças — e desfecho trágico. Assim pode ser contada a morte de Júlia de Mello, 17 anos, ocorrida no sábado (13), em Canoas, e que tem o ex-namorado da jovem como principal suspeito.

Ainda tentando entender o que fez a filha ir ao encontro do algoz, Cláudia Cristiane Suttoff desabafa:

 

— Não é amor. É medo. Ela chorava e dizia: “Mãe, eu não quero mais isso na minha vida”.

 

Desde julho do ano passado, quando foi agredida a facadas, Júlia tinha medida protetiva de urgência, que era válida até 24 de janeiro. A medida proibia que Richard Campanel da Silva Staziacki, 19 anos, se aproximasse da jovem. Ele tem antecedentes policiais por homicídio, tráfico de drogas, roubo, lesão corporal e porte de arma, entre outros. Ele está com prisão preventiva decretada e é considerado foragido. Nenhum advogado se apresentou até o momento como responsável pela defesa dele.

A família acredita que Júlia seguia em contato com o suspeito por causa das ameaças que ele fazia dirigidas até a familiares e a amigos. A relação da jovem com Staziacki começou há pouco mais de um ano. Foi um relacionamento com muitas brigas, idas e vindas. No período, em pelo menos três oportunidades, Júlia sofreu agressões. Segundo familiares, o então namorado era possessivo.

 

Júlia havia saído de casa, em Viamão, dizendo para a mãe que voltaria logo. Como seu telefone estava estragado, levou o aparelho da mãe. Mas não voltou. A jovem estava em uma festa com duas amigas, em Porto Alegre, quando recebeu o chamado do ex-namorado.

 

“Vem cá meu amor, estou morrendo de saudade de ti”, teria escrito Staziack em uma mensagem enviada para atrair a ex-namorada. Apesar de as amigas relutarem, ela resolveu ir até o bairro Guajuviras, em Canoas.

 

— Elas foram com um motorista de aplicativo conhecido. Era uma praça, uma delas estranhou e decidiu ir embora. A Júlia e a outra amiga desceram. Ele apareceu, beijou a Júlia e já encostou a arma na cabeça. Era ele e mais dois, todos armados — conta a irmã de Júlia, Fernanda de Mello, 29 anos, a partir de relatos de testemunhas e da apuração da polícia.

 

Júlia teria sido baleada três vezes. A amiga, grávida de cinco meses, recebeu cinco tiros, mas sobreviveu e se recupera no hospital. Os envolvidos estão sendo procurados pela Polícia Civil. Conforme familiares de Júlia, dias antes do crime Staziack teria enviado vídeos ameaçadores à jovem, em que ele aparecia empunhando armas.

 

O episódio mais grave da tumultuada relação do casal foi em julho do ano passado, depois de o suspeito sair da prisão onde estava, segundo familiares da jovem, por roubo. Ele a atacou com uma faca. Júlia sofreu ferimentos nas mãos e nos braços e teve os cabelos cortados. Registrado em Porto Alegre, já que o crime ocorreu na casa dele, na Zona Norte, o caso segue sem conclusão da polícia até hoje.

 

— Todos temos que pensar onde falhamos. Casos assim envolvem atuação de toda uma rede de proteção, composta pela família, polícia e outros. Quando se perde uma vida para o feminicídio, temos que fazer essa avaliação. É preciso agir em conjunto — diz a delegada Jeiselaure Rocha de Souza, titular da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher.

A delegada afirma que não tem informação de que a medida protetiva tenha sido renovada. Segundo ela, a renovação dependeria de iniciativa da vítima em solicitar. GZH questionou o Tribunal de Justiça, que explicou, por intermédio da assessoria de imprensa, que só poderá verificar a informação na quarta-feira (17), já que o processo é físico e o plantão não tem acesso a ele em razão do feriado de Carnaval.

 

— Eu fui na delegacia, liguei para todo mundo, pedi socorro, mas a gente não teve retorno. Ela não foi chamada para dar depoimento (sobre as facadas de julho), nada. É como se eles tivessem fechado os olhos, e não é a primeira mulher que morre, que sofre disso, só que era uma menina de 17 anos que tinha o mundo pela frente. Eles têm que dar mais importância para isso, a gente não tem ninguém para nos defender. Como a Justiça não faz nada? Já era para ele ter sido preso — desabafa a mãe da vítima.

 

Cláudia, que teve oito filhos, já tinha a vida marcada por violência doméstica.

 

— Vivi isso, apanhando muito para criar eles (filhos), não tinha esse suporte da (lei) Maria da Penha. Quando veio a lei, corri e pedi socorro. Eu pude me livrar. Isso não é amor, é medo que a gente sente. Acho que ela tinha medo dele fazer algo para nós. Ela era uma guria maravilhosa, todos elogiavam, prestativa, de bem com a vida. Queria que a Justiça desse mais importância para essas mulheres que apanham e são mortas e para esses caras (agressores) que acham que são Deus — diz.

 

Conforme a irmã Fernanda, Júlia estudava e atualmente frequentava curso de sobrancelha e maquiagem:

 

— Ela era estudiosa, alegre, gostava de festa.

 

Reduzir os casos de feminicídio é um dos desafios da polícia. No ano passado, já houve queda no comparativo com 2019. Foram 97 casos em 2019 e 78 em 2020 no Estado.

Fonte: GZH

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