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18 de março de 2018

Calote motivou informante a inventar ritual satânico para justificar a morte de crianças no RS,diz Polícia

 A Corregedoria-Geral da Polícia Civil (Cogepol) do Rio Grande do Sul detalhou alguns pontos sobre a investigação falha que culminou na prisão de sete inocentes, que eram suspeitos de um falso ritual satânico com a morte de duas crianças em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Conforme a polícia, um calote motivou o informante do delegado Moacir Fermino, indiciado por crimes cometidos durante o curso da investigação, a forjar testemunhas para incriminar pessoas que não tinham ligação com o caso.
“Existe nos autos uma situação que envolve esse informante. Ele teria sido subcontratado para fazer a limpeza de um terreno de uma das pessoas presas, e esse serviço não foi prestado. Ele recebeu o valor e não executou o serviço. Isso nos leva a crer que esse seja um elemento preponderante”, afirma o delegado Antonio Lapis, da Delegacia de Feitos Especiais da Cogepol.
O objetivo dele era tirar de circulação uma das pessoas que haviam sido presas injustamente pelo delegado Moacir Fermino. Essa pessoa havia comprado um terreno e contratado outro homem para realizar a limpeza do local. Esse homem, não identificado, subcontratou o informante para fazer o trabalho.
Chamado apenas de Paulo pelos policiais, que não deram mais detalhes sobre sua identidade, o informante recebeu antecipado mais de R$ 20 mil para fazer a limpeza, mas não realizou o serviço. Com isso, o homem que acabou preso injustamente cobrou que fosse feita a limpeza do terreno, o que gerou desconforto de Paulo, que tramou para incriminá-lo, junto a outras pessoas.
Parte do pagamento foi feito com um Chevette. O carro, no entanto, seria revendido ao intermediário do serviço. O valor referente ao veículo, porém, também não foi pago, sob a alegação que a limpeza do terreno não foi feita.
“O Paulo tinha essa rixa com a questão do terreno. Era um serviço em torno de R$ 20 e tantos mil e que não foi executado. Por isso algumas dessas pessoas foram inseridas dentro desse contexto”, conta o delegado Lapis.
Para incriminar o desafeto, Paulo coagiu três testemunhas a prestarem depoimentos falsos à polícia. Amigo de longa data do delegado Moacir Fermino, ele fez com que essas pessoas colocassem a culpa da morte das crianças em um suposto ritual satânico, que não aconteceu. Como recompensa, elas seriam incluídas no Programa Protege, que dá assistência – inclusive financeira – a testemunhas ameaçadas.
“Existia a questão do oferecimento, que na cabeça deles era em torno de R$ 3 mil, e eles ficariam em uma casa com tudo pago. Então esse era o contexto que o Paulo trazia para as testemunhas. Só que, na prática, o sistema de proteção às testemunhas não é R$ 3 mil a ajuda de custo, é muito menos. Então, isso também movia de alguma forma o Paulo dentro da criação dessa história”, descreve o delegado.
Por esse crime, o informante foi preso em fevereiro deste ano, e acabou indiciado quatro vezes por corrupção de testemunhas.
Ainda de acordo com a polícia, todas as informações falsas eram repassadas pelo Paulo e validadas pelo delegado Fermino, mesmo que não fossem verdadeiras. O que importava para eles era que as pessoas que haviam sido presas injustamente não fossem soltas. “As investigações continuaram mesmo com divergências gritantes acontecendo”, lamenta Lapis.
Já o delegado Moacir Fermino teve três indiciamentos por falsidade ideológica e outros quatro por corrupção de testemunhas. Ele está afastado das funções desde fevereiro, e a Cogepol chegou a pedir a prisão do delegado, o que foi negado pelo Judiciário.
Para Lapis, Fermino buscava uma ascensão religiosa, e isso pode tê-lo motivado a concordar com as informações fornecidas por Paulo. “Ele é pastor de uma igreja e, dentro desse universo, acaba trazendo uma questão de status”, relata o delegado.
Em depoimento à polícia, Fermino negou a hipótese. Ele disse que simplesmente acreditou na história repassada pelo informante e buscou elementos para comprovar a tese. “Foi um depoimento longo, em que muitas vezes ele não respondia ao que estávamos perguntando”, afirma o delegado Lapis.
No entanto, a polícia anexou aos autos do inquérito um livro apreendido na casa do delegado Fermino que trata sobre rituais satânicos e a realização de uma seita. De acordo com o delegado Bruno Pitta, também da Delegacia de Feitos Especiais da Corregedoria, havia vários trechos marcados que coincidem com relatos das testemunhas às autoridades.
“A equipe constatou semelhanças em diversos trechos da narrativa com aquilo que foi narrado para nós no depoimento das testemunhas”, diz.
O delegado Lapis confirmou que jamais havia trabalho em um caso parecido com esse, mas que o objetivo da polícia era apresentar um trabalho técnico para descobrir a verdade.
“Acredito que com todo esse trabalho que foi realizado a gente conseguiu demonstrar o que aconteceu. Tínhamos essa preocupação de dar esse retorno para a sociedade, de que a Polícia Civil é um órgão técnico, que trabalha com a verdade, e que é transparente. Existem problemas, sim, e quando eles acontecem são atacados e enfrentados pela própria instituição”, ressalta.
Relembre o caso
Partes de corpos de duas crianças, um menino e uma menina, foram encontradas em setembro do ano passado, em dois locais distintos em Novo Hamburgo, e com alguns dias de diferença. Exames de DNA indicaram que eles são irmãos por parte de mãe, um menino de 8 anos, e uma menina de 12. A perícia apontou ainda que uma das crianças tinha ingerido uma grande quantidade de álcool, 14 vezes maior que o nível de embriaguez.
No início de janeiro, a Polícia Civil divulgou os decretos de prisão, autorizados pela Justiça, de homens que estariam relacionados a um ritual satânico, ligado a um templo em Gravataí. Quatro deles haviam sido presos. Algumas semanas depois, um quinto foi preso. Conforme a polícia, as crianças, teriam sido mortas durante o suposto ritual.

Fonte: G1
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