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18 de outubro de 2021

BM e Polícia Federal reforçam equipes em aldeia caingangue marcada por assassinatos

Dezenas de policiais foram deslocados com urgência no fim de semana para a área indígena da Serrinha, situada entre Ronda Alta e Engenho Velho, no norte do Rio Grande do Sul. Dois caingangues foram mortos como vingança, após um atentado a bala sofrido pelo cacique Márcio Claudino. Foi a culminância de vários desentendimentos entre os índios ocorridos nos quatro últimos dias.
A Brigada Militar designou dois pelotões do Batalhão de Policiamento de Choque de Passo Fundo para atuar nas imediações daquele território caingangue, que tem 12 mil hectares de área e na qual vivem 1,7 mil índios. Os militares garantiram a segurança de um grupo de índios dissidentes, adversários do cacique, que estavam ameaçados de morte e tiveram de se deslocar para outros aldeamentos, abandonando suas casas.
Alguns desses caingangues dissidentes são suspeitos de tentarem matar o cacique Claudino, no sábado (16). A caminhonete Hilux que ele conduzia, com outros três comandados, foi alvejada por pelo menos 24 disparos, de revólver e espingarda, quando trafegava próximo a Engenho Velho. Ninguém ficou ferido. Na perseguição aos autores do atentado, seguranças do cacique teriam matado dois índios, que ficaram caídos numa lavoura. Havia informação de que outros dois indígenas foram assassinados, mas ela ainda não se confirmou e as buscas continuam. Quatro veículos foram queimados e, também, uma casa – todos de adversários do cacique.
A Polícia Federal fez a perícia do local e identificou os homens mortos como integrantes do grupo adversário ao do cacique. Com eles foram apreendidas duas espingardas, calibres 12 e 20.
Foi o ápice de um confronto que começou no meio da semana, quando o cacique Claudino determinou a expulsão da Serrinha de um grupo de caingangues que lhe faz oposição. Alguns se recusaram a sair e foram presos na cadeia indígena, que funciona dentro da aldeia e é controlada pelos índios. Conforme denúncias de seus familiares, eles foram duramente espancados e acabaram libertados só após apelos do Conselho de Anciãos da tribo e também da Brigada Militar. O atentado contra o cacique e as mortes aconteceram na sequência.
Os 40 policiais do BPChoque saíram no sábado e nós deslocamos para a aldeia duas equipes da nossa Força Tática, num total de 20 homens. Tudo para impedir novos confrontos — relata o major Juliano Moura, comandante 38º Batalhão de Polícia Militar (BPM), responsável pelo policiamento ostensivo naquela região.
A área indígena da Serrinha vive em tensão há pelo menos quatro anos, desde que o então cacique Antônio Mig Claudino – pai do atual cacique – foi assassinado, em março de 2017. Ele foi morto com cinco tiros, num bar nas cercanias da aldeia. Após investigação, a PF prendeu oito supostos envolvidos no homicídio, que viraram réus.
O pano de fundo para as disputas é o controle da aldeia e, conforme investigações da PF, dos arrendamentos de terras agriculturáveis da área indígena. A prática é proibida (porque os aldeamentos são território da União), mas está disseminada em todas as aldeias caingangues do Rio Grande do Sul, sendo uma grande fonte de financiamento dos índios, sobretudo os líderes. Quem lhes faz oposição não recebe dinheiro do aluguel das terras.
Entrevista: cacique Márcio Claudino, da aldeia caingangue da Serrinha
Estavam na cidade ameaçando, dizendo que iam me matar”
Cacique, ficamos sabendo do atentado e das mortes. Pode nos relatar o que aconteceu?Cacique Márcio Claudino – Pois é…esses que morreram eram amigos nossos, mas uma prima minha colocou na cabeça deles que poderiam tomar a comunidade. Somos mais de 800 famílias, eles são umas oito. Mandamos eles para outras áreas, comunicamos que fossem morar com parentes. As famílias receberam eles de volta. Mas uma professora induziu eles a voltar. Aí fizeram um grupo e ficavam nos ameaçando, andando de armas pela área. Ligamos pra Polícia, nunca ninguém foi lá. Aí deu o que deu, passei ali e eles me atiraram, né…
Mas antes disso, durante a semana, alguns dos seus opositores estiveram presos…não os que atiraram.
Cacique – Os dois que morreram escaparam de ser presos, mas outros desse grupo aí foram presos pela polícia indígena, porque estavam na cidade ameaçando, dizendo que iriam me matar. Outros foram embora.
Aí seu pessoal prendeu eles…
Cacique – Prendeu. Esses que morreram carregavam armas e uma mochila cheia de cartuchos e balas. Conforme informações do meu pessoal, um pessoal que apoiava eles e correu estava baleado…não encontramos.
O pessoal que acertou os atiradores faz a sua segurança?
Cacique – Não, foi pessoal da comunidade, que me apoia. Não estavam no carro comigo. Na verdade, 90% da comunidade apoia nosso trabalho. Os opositores alegam que não sou caingangue, porque meu pai biológico é branco. Dizem que não sou legítimo, mas sou, a comunidade me respeita.
O seu pai foi assassinado também…
Cacique – Sim. Para ver como a Justiça age, me deixaram 16 dias presos, por suspeita de ser mentor do assassinato do meu pai. Mas fui absolvido. Os outros continuam réus.
Qual foi a motivação desse caso do seu pai? Esses que foram presos eram seus amigos ou adversários?
Cacique – Eram meus amigos, de jogar bola juntos, mas eles criaram um atrito com meu pai. Não por poder, mas porque eles invadiram uma propriedade de um não-índio. Meu pai não apoiou. A Polícia Federal foi lá, prendeu eles, eles juraram meu pai de morte, né…Acho que agora vai acalmar a coisa. Esse grupo tava recrutando gente em outras aldeias para vir brigar com nós, até por isso a gente tava preparado, esperando, né…

Fonte Gaúcha ZH

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